A cultura do descartável

Repensar a relação com o lixo não é uma utopia ambiental, mas sim uma necessidade urgente. Após a Segunda Guerra Mundial, avanços técnicos e científicos alavancaram a vida e o conhecimento humano a patamares jamais imaginados. Uma infinidade de aparatos tecnológicos passou a fazer parte do cotidiano das pessoas. Hoje, há conforto material e agilidade para os afazeres diários. O aumento da produção de bens gera um maior descarte de resíduos sólidos. “A parcela que é consumidora tem que consumir compulsivamente. Para isso, é necessário que essa mercadoria tenha uma obsolescência gigantesca”, reflete a socióloga e professora da PUCRS Ruth Ignácio.

O último 5 de junho marcou o Dia Mundial do Meio Ambiente. Em um pronunciamento em cadeia de TV, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, convidou a população a refletir sobre a questão do lixo. Os brasileiros produzem 183 mil toneladas de detritos urbanos diariamente e mais de um milhão de pessoas trabalham e sobrevivem da reciclagem desse material. Apesar disso, o País perde quando objetos com possibilidade de reciclagem são descartados incorretamente: “O Brasil deixa de ganhar 8 bilhões de reais por ano por não reciclar tudo que pode. A simples atitude de separar o lixo facilita o serviço dos catadores”, alerta Izabella.

A reciclagem se legitima ao preservar recursos naturais não renováveis e ao possibilitar que pessoas que vivem à margem da sociedade possam recuperar sua dignidade. O Movimento Nacional dos Catadores estima que 800 mil brasileiros exerçam a profissão. David Amorim, assessor de imprensa do órgão, afirma que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) é mais um incentivo para a formalização do trabalho em cooperativas e sociedades, além de agregar qualidade de vida a quem sobrevive desta função: “Políticas públicas retiram o catador da invisibilidade social para lhe dar papel de protagonista no processo de gestão dos resíduos”.

Após quase 20 anos de tramitação no Congresso Brasileiro, a Política Nacional de Resíduos Sólidos foi sancionada em agosto de 2010 pelo presidente da República. O texto prevê, entre outras diretrizes, que empresas se encarreguem pelo destino final do seu lixo eletrônico. Um destaque da lei é a logística reversa, que compartilha a responsabilidade pelo ciclo de vida dos produtos entre consumidores, produtores, fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes. Assim, todos são responsáveis pelo descarte correto de seus detritos. O professor de Engenharia Química Cláudio Frankemberg aponta que não há um processo de reciclagem ideal para todos os materiais: “Cada equipamento tem uma composição distinta e, conseqüentemente, um destino diferente”. A PNRS também institui que até 2014 os lixões a céu aberto devem ser banidos ou substituídos por aterros sanitários e que os municípios segreguem os resíduos para descartá-los de maneira ambientalmente correta.

No âmbito municipal, a prefeitura de Porto Alegre disponibiliza três pontos para a coleta de material eletrônico. Diferentemente dos lixos orgânico e seco, recolhidos semanalmente em todos os bairros da Capital, o tecnológico não possui esta demanda ostensiva, garante a engenheira química e coordenadora do Núcleo de Reaproveitamento do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), Mariza Reis. Ela afirma que o porto-alegrense descarta, em média, um quilo de lixo por dia. “Vivemos a compulsividade e a efemeridade do consumo”, enfatiza Ruth.

A prefeitura da Capital recolhe cerca de 1,6 mil toneladas de resíduos diariamente mas apenas 10% são reaproveitadas: 100 toneladas de lixo seco seguem para triagem antes de serem recicladas e o restante é material orgânico, que vai para compostagem e vira adubo. O que não é aproveitado segue em caminhões para o aterro do Recreio, no município de Minas do Leão.

Sucata tecnológica

Em uma área equivalente a dois campos de futebol, 1,5 mil toneladas de lixo eletrônico exalam um odor impregnante, semelhante ao da ferrugem, característico de componentes metálicos. Milhares de monitores, impressoras, televisores, processadores, teclados de computador e um emaranhado de fios empilhados minam os 18,2 mil metros quadrados dos cinco galpões da IZN Recicle Brasil, única empresa que realiza a coleta desse tipo de material no Rio Grande do Sul. Nos depósitos localizados na Região Metropolitana de Porto Alegre, o que antes era usado em residências e escritórios é amontoado por 65 funcionários que se dedicam ao desmanche de eletroeletrônicos.

Cada tonelada de lixo eletrônico vale, aproximadamente, R$ 1,6 mil. Isso significa que mil quilos de computadores, com média de cinco anos de uso, geram receita suficiente para comprar uma única máquina. Além da obsolescência e baixa vida útil dos materiais, o comportamento humano catalisa o fenômeno. “As pessoas descartam um produto que funciona, que ainda tem vida útil e que não está em fase de descarte final. Elas descartam porque simplesmente não o querem mais”, explica o professor de engenharia química da PUCRS Cláudio Frankenberg.

As peças internas das máquinas são vendidas separadamente para países como Paquistão e Taiwan, garantindo lucro à IZN, à medida que a produção de eletrônicos se tornou crescente. O revestimento externo, constituído basicamente por metal e plástico, é revendido e reaproveitado em novos equipamentos, por grupos que têm parceria com a empresa, como Gerdau, Tramontina e Zaffari. Mesmo com a demanda em alta, não há mão-de-obra suficiente para reciclar todo lixo produzido no Estado. “Hoje nós temos 65 funcionários, incluindo os 17 presos do regime semi-aberto que trabalham na área de desmanche e separação. Oferecemos cem vagas para presidiários, mas nunca foram preenchidas. Assim, não conseguimos suprir a demanda na reciclagem do lixo eletrônico”, revela o diretor administrativo, Giovane Nardini.

A produção brasileira de lixo eletrônico é de cerca de 95 mil toneladas anuais. Não se deve dar outro destino ao resíduo, senão o reaproveitamento. Esse processo é projetado pelas grandes empresas, pois é viável economicamente e bom para a imagem institucional. A socióloga Ruth Ignácio revela essa disparidade entre as duas preocupações: “Existe uma questão de marketing muito grande e, por mais que mesmo conscientemente a parte administrativa não tenha consciência ambiental, ela vai ter essa preocupação por uma questão financeira”. Ruth acredita que o consumo desenfreado de eletrônicos e seu descarte incorreto ocasionariam o fim da espécie e menciona a preocupação ambiental como prioritária no ciclo da reciclagem: “Há quem não faz por consciência ambiental, mas meramente por uma questão econômica. Do ponto de vista ambiental, isso é ótimo”, conclui.

Economia reciclada

Ao mesmo tempo em que a cultura do descarte gera um número elevado de resíduos, ativistas formam uma rede de solidariedade que se preocupa em agir com consciência ambiental e social. O Mensageiro da Caridade, braço assistencial que segue a filosofia de trabalho humanista da Arquidiocese de Porto Alegre, recebe doações dos mais diversos tipos de bens materiais. A maioria são objetos usados, consertados caso haja necessidade, que acabam revendidos por um preço simbólico. Os números comprovam a função cumprida pelo Mensageiro: são mais de 225 mil doadores cadastrados, cerca de 100 jovens carentes empregados com carteira assinada em oficinas-escolas e uma média de 800 doações diárias. O dinheiro arrecadado serve para manter a estrutura e alimentar outras ações sociais. “Promovemos a caridade de forma organizada e com responsabilidade ambiental. Começamos com esse trabalho há 55 anos, muito antes de a sociedade pensar sobre isso”, afirma Elton Bozzetto, assessor de comunicação da instituição.

Professor de Física aposentado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Rolando Axt, 68 anos, há 10 usufrui do serviço prestado pelo Mensageiro. Desde que parou de lecionar, há três anos, frequenta quase que diariamente o prédio localizado na Avenida Ipiranga. Ele acredita que a solidariedade pode ajudar as pessoas a darem um melhor destino a algo que iria ser jogado fora, além de auxiliar os beneficiados. “O futuro do computador é o lixo e o futuro do lixo é computador”, dispara ao ressaltar a necessidade da reciclagem. Axt tem por hábito comprar vitrolas e presentear quem ele julga que irá fazer bom uso do equipamento. Acredita que já comprou mais de 200 aparelhos sonoros, dos quais ainda restam cerca de 50 empilhados por diversos cômodos da casa. “É como pescar, tem dias que é bom, tem outros que não”, brinca.

O estudante universitário Paulo Guilherme Alves, 22 anos, conheceu o trabalho do Mensageiro da Caridade após mudar-se do apartamento que dividia com um colega. “Estava difícil comprar móveis. Até em mercados de rua o preço era alto”, conta. Um amigo lhe indicou a instituição e Paulo mobiliou metade do seu novo lar. Sofá, mesa, raque, bidê, luminária, armário, microondas e fogão custaram, juntos, 350 reais. “Estas organizações solidárias rompem com a lógica mercantilizada do produto ao procurar ser ambiental e socialmente corretas. Além disso, criam o princípio da solidariedade”, sustenta Ruth Ignácio.

Texto: André Pasquali e Igor Grossmann

Endereços para você encaminhar seu lixo tecnológico:
Prefeitura Municipal de Porto Alegre
Av. João Goulart, 158 – Telefone: 3289 6941
Travessa Carmen, 111 – Telefone: 3289 6958
Av. Ipiranga, 1.200 – Telefone: 3289 6163

IZN Recicle Brasil
Rua Voluntários da Pátria, 2987 – Telefone: 3061 9101
Av. Alberto Bins, 629 – Telefone: 3013 8333
BR-116, ao lado do pórtico de Sapucaia do Sul – Telefone: 3452 4000

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