Apelo à sapiência

Maldito foi o homem que pediu ao inventor King Camp Gillette, em 1901, que criasse algo que fosse usado apenas uma vez para que o cliente comprasse mais produtos. Assim surgiram as lâminas de barbear descartáveis. Esta inovação, no começo, não fez muito sentido para a maioria das pessoas, que só compreendiam a existência de objetos duráveis, como uma navalha. Naquele contexto, Camp não criou apenas um produto prático de higiene pessoal, mas foi ele o primeiro a materializar um conceito fundamental do sistema capitalista: a cultura do descartável.

A consolidação dos descartáveis trouxe conforto, mas com ele veio atrelado um dos maiores problemas da sociedade contemporânea: as toneladas de detritos produzidos diariamente. Lixo não é algo novo, ele tem uma longa história, possuindo muitos significados que revelam valores de diversas culturas. Na China antiga, qualquer pedaço de papel com algo escrito possuía valor e não deveria ser jogado fora, embora pudesse ser queimado, através de um ritual. Na Itália, uma das regiões mais urbanizadas no fim da Idade Média, o controle de lixo já tinha grande importância. Em Siena, a municipalidade alugava porcos para comer os detritos e manter as ruas relativamente limpas. Entretanto os padrões de higiene urbana, incluindo a questão do lixo declinaram significativamente após 1800 com o crescimento das primeiras cidades industriais

A efemeridade imposta pela pós-modernidade e a baixa vida útil dos aparelhos tecnológicos catalisam o caos da situação. Vivemos num período em que tudo fica rapidamente obsoleto. É uma crise da relação entre homem e objeto, quebrando-se a ligação afetiva e sentimental. Infelizmente descartar tornou-se um hábito contemporâneo. É difícil ir contra a corrente quando o baixo custo dos produtos derivados de plásticos atrai o consumidor e a indústria desenvolve artigos que tenham prazo diminuto de validade, de forma proposital, para manter a economia aquecida. A cultura do descartável não engloba apenas essa condição material da produção e lógica de mercado, ela consolidou-se como comportamento quase intrínseco do ser humano. É agora, momento em que o homem está mais sapiens do que em qualquer momento da história, que devemos nos perguntar: o que faremos quando acabar o “fio da navalha” de nossos recursos naturais?

Texto: Felipe Martini

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