Para historiador, homenagem a Golbery é provocação

 

A construção de um busto em homenagem ao centenário do general Golbery do Couto e  Silva é motivo de polêmica em Rio Grande.  A pedra fundamental da obra foi lançada pelo prefeito da cidade Fábio Branco no dia 21 de agosto. Golbery, que foi ministro durante a ditadura militar, é tido como um dos mentores do golpe de 1964 por opositores do regime.

Para o historiador e professor da UFRGS Enrique Padrós a homenagem é uma provocação. “No momento em que a sociedade tenta resgatar a memória com a Comissão da Verdade, o monumento vai na contramão. É um contra senso!”. Padrós explica que o tema ainda é muito sensível, pois “tem pessoas que sofreram na mão da ditadura que ainda estão vivas, ou filhos que carregam as dores dos pais”.

O projeto, aprovado na câmara de vereadores no final de 2009, teve apenas dois votos contrários: o de Júlio Martins (PCdoB) e o de Luiz Francisco Spotorno (PT). Em resposta à aprovação, até o dia 21 de outubro, 1814 riograndinos haviam assinado a petição contra o monumento. Além disso, supostos manifestantes pintaram de verde e amarelo a pedra fundamental e furtaram a lajota de proteção.

Pedra fundamental do monumento foi violada por vândalos
Pedra fundamental do monumento foi violada por vândalos

Para o vereador Júlio Martins, “Golbery significa a política golpista, de repressão, investigação e perseguição da ditadura”. Martins ainda acusa o general de ter conspirado contra Juscelino Kubitschek, ter tentado evitar a posse de Jango em 61, e, por fim, ter ajudado a armar o golpe militar. O jornalista e escritor Luiz Claudio Cunha reforça as acusações e acrescenta que foi o general quem criou e presidiu o Sistema Nacional de Informação (SNI), no qual iniciou a política de controle, investigação e perseguição da ditadura.

Renato Albuquerque, vereador pelo PMDB e propositor do projeto, defende Golbery. “Eu não conheço malefícios que ele tenha feito ao Brasil, nenhum crime que ele tenha realizado.” Albuquerque, que foi secretário municipal e vereador pela Arena, propôs a homenagem porque Couto e Silva era riograndino. Como ministro-chefe da casa civil, o general instalou a estação de tratamento de água na cidade, que a tornou “autosuficiente em água potável pelos próximos 200 anos”, construiu o terminal granalero trigo-soja, transferiu o 5º pólo naval e criou a Universidade Federal de Rio Grande. “A figura dele em relação a Rio Grande era paternal”, afirma o vereador, e ainda lembra que “na democracia temos que saber conviver com todos os lados, temos que aprender a conviver com a expressão do que não concordamos e não gostamos.”

Padrós conta que Rio Grande era uma cidade estratégica e, por ter um forte movimento sindical, a repressão foi muito dura. “Tinha um navio enorme no porto onde prendiam e torturavam as pessoas, dizem que às vezes ele saia para ‘fazer uma entrega’, que era jogar os prisioneiros no mar”.

Texto: Shana Sudbrack e Manuela Kuhn. Foto da capa: Reprodução / Prefeitura de Rio Grande – RS. Foto: Simone Régio

3 comentários

  • Bruno
    21:58

    “na democracia temos que saber conviver com todos os lados, temos que aprender a conviver com a expressão do que não concordamos e não gostamos.”

    Sim, com as opiniões das pessoas, fatos, etc, mas desde que esses, sejam comum à sociedade, e de interesse da mesma. Essa democracia do vereador é aquela que mata porque a maioria dos políticos querem! O conceito de democracia do Vereador é “a cara” de quem honra um Ministro como Golbery. Vergonha!

  • mohel
    11:29

    Hey there , I am making a blog and some of your original articles would really fit in well. Would you care if I copy and paste this article?

  • […] do Editorial J Texto: Shana Sudbrack e Manuela Kuhn. Foto da capa: Reprodução / Prefeitura de Rio Grande – RS. […]

Deixe um comentário

Comentários fechados.