Maioria entre os gamers, mulheres têm pequena participação em campeonatos de jogos digitais

Machismo e violência simbólica deixam jogadoras inseguras para participar de competições

  • Por: Taimá Walther (6º semestre) | Foto: Giulia Beites | 16/05/2019 | 0

Dos 96 participantes dos campeonatos de CS:Go (Counter Strike Global Offensive) e LOL (League of Legends) que aconteceram no Poa Geek Week no primeiro fim de semana desse mês (dias 4 e 5), apenas 2 eram mulheres. As inscrições para ambos campeonatos eram abertas para o público geral e as equipes deveriam ser compostas por seis integrantes cada. Não foi estabelecida separação por gênero dentre os times, o que possibilitou que homens e mulheres competissem nas mesmas categorias.

A situação não é incomum, apesar de as mulheres serem maioria crescente entre os jogadores brasileiros. Desde a primeira até a mais recente divulgação da Pesquisa Gamer Brasil, houve um aumento de mais de 10% de participação feminina entre esse público. Em 2013, primeiro ano do estudo, as mulheres somavam 41% de participação. Já em 2018, chegaram a 58,9%. O que pode explicar, então, essa presença feminina pouco expressiva nas competições e eventos de jogos digitais?

A questão de diferenciação de gênero quando o assunto é jogos digitais remete ao contexto social da década de 90. Os escritores Justine Cassell e Henry Jenkins, em seu livro “From Barbie to Mortal Kombat”, explicam que o aumento da violência na época fez com que brincadeiras de rua fossem substituídas, aos poucos, por atividades dentro de casa, como os videogames. Nesse momento, enquanto meninos poderiam aproveitar a experiência de jogar tendo seus heróis como personagens, simular corridas de carros e partidas de futebol, as meninas continuaram brincando de casinha.

Para Gabriela Kurtz, professora da Faculdade de Comunicação da PUCRS e pesquisadora sobre violência contra mulheres no universo dos jogos, a violência simbólica cometida contra mulheres é um ponto importante para entender essa questão. Atitudes comuns nos jogos online, como jogadores explicando regras e detalhes do jogo para jogadoras sem que elas peçam, são fatores que levam as mulheres a ficarem inseguras da sua capacidade. “A insegurança das mulheres jogando é bem mais evidente do que quando um menino tá jogando”.

Gabriela conta que sua motivação com essa área de pesquisa vem, também, de experiências pessoais como jogadora. Primeiro, percebeu que não conseguia se identificar como mulher onde jogava sem sofrer assédio e receber xingamentos. Então, identificou também a necessidade de entender o que acontecia e porquê acontecia. “O que era óbvio é que as pessoas me xingavam, mas cadê a raíz do problema? A raíz do problema não é o xingamento. A raíz do problema é a estrutura que a gente tem”.

A violência evidente

No LOL, assim como em em outros jogos online, é possível interagir por mensagem de texto com outros jogadores, através de um chat na própria partida. Além disso, jogadores podem enviar uns para os outros, na forma de presentes, itens que são vendidos no jogo. É parte da cultura que usuários que usam nickname (um apelido) feminino no jogo recebam esses contatos e presentes com um teor de assédio. Muitas mulheres que jogam LOL relatam o desconforto que essas atitudes causam.

“Perdi a conta de quantas vezes eu me preocupei em reescrever uma frase de modo a não transparecer que eu sou mulher. Poder usar nickname feminino e falar como mulher não deveriam ser conquistas, deveria ser o padrão”, postou uma usuária no fórum oficial do LOL.

Mesmo em níveis profissionais, o preconceito de gênero também existe. Diana Trevisan, 20 anos, joga profissionalmente há quatro anos. Ela foi a comentarista da etapa final do campeonato de CS:Go na Poa Geek Week. Integrante da equipe feminina de CS:Go do time TeamOne há um ano e meio, se interessou por jogos digitais por influência do pai e do irmão. No começo, jogava LOL de forma amadora e conta que sentia o preconceito maior do que no CS:Go.  “No LOL eu sentia que era muito pior. O público era mais novo, mais jovem, então não era tão respeitoso. No CS o público é um pouco mais adulto”

Porém, Diana diz que o assédio ainda acontece. Ao entrar no perfil da jogadora na Twitch.tv (plataforma usada para streaming de jogos online), a primeira pergunta que encontramos respondida na sessão de esclarecimentos é “manda nudes?”. A frase, que significa pedir fotos sensuais de alguém, é bem recorrente para ela. ˜Pessoalmente, isso pesa um pouco no psicológico. Porque tu pensa que tá ali fazendo um trabalho legal, dando a minha vida pra isso… Chega uma pessoa e, ao invés de reconhecer isso, pede um nude.”

Mas, apesar dos casos de violência e machismo, para as mulheres que gostam e querem jogar, Diana incentiva que não desistam. “Tem que fazer. Tem que chegar lá. Tem que dar a cara a tapa. A gente só vai conseguir fazendo e quebrando barreiras.”

 

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