Os vários Jobs em um Steve

A morte de um astro do rock, um grande ator ou um jogador famoso costuma gerar grande comoção entre multidões. O dia 5 de Outubro de 2011 ficou marcado, dentre várias outras razões, por ter adicionado uma nova profissão ao rol da idolatria: após o falecimento do empresário e fundador da Apple, Steve Jobs, milhares de fãs foram às ruas bradar o seu pesar pelo milionário, que nunca cantou, nunca fez um gol ou mesmo interpretou algum papel no cinema.

Jobs influenciou diversas áreas durante sua carreira. Foi um grande administrador e nesse campo é lembrado como um visionário. Amparado sempre por grandes profissionais, fez da atenção ao detalhe uma de suas marcas registradas, tornando, por exemplo, a Apple um ícone do design. Na informática, fez um computador entrar em um celular com uma habilidade invejável. Tudo isso lhe rendeu o rótulo de gênio, embora questionamentos o acompanhassem na sua trajetória, em especial sobre a sua política contrária ao software livre.

As homenagens após seu falecimento não foram pequenas. Somente 12 horas após a notícia, mais de cinco milhões de tweets foram destinados a ele. Isso sem falar nas grandes empresas rivais, como a Microsoft, de Bill Gates, que não hesitou em prestar suas condolências. Steve Jobs arregimentou fãs por incorporar várias características que, além de o tornarem multimilionário, fizeram dele um verdadeiro popstar.

 

Construindo um império

Nem tudo foi um mar de rosas na trajetória profissional de Steve Jobs. Em 1984, após disputas internas, saiu da Apple e fundou a NeXT, que mais tarde seria comprada pela primeira, colocando Jobs de volta na empresa que idealizou. Para Eduardo de Souza, professor de Administração da PUCRS e especialista em Marketing, Jobs esteve no ambiente certo desde cedo: “Ele nasceu num país que já na sua época tinha um empreendedorismo mais sólido, um ambiente propício aos grandes investimentos. A América do Norte era a terra das oportunidades”. Seu talento e sua forma visionária de ver as coisas sempre o distinguiram dos demais. “Jobs é uma estrela de várias áreas. Como administrador, cativou as pessoas, sempre procurou inovar, preparar bem suas apresentações. Ele teve a capacidade de ser o comandante motivador de uma geração e levou as pessoas a terem o desejo de consumirem seus produtos”, salienta.

 

O egocêntrico?

Jobs tinha pressa. Quando recebeu o diagnóstico de sua morte, sabia que não teria tanto tempo para marcar ainda mais o seu nome na história. “O que se dizia é que na própria empresa ele se colocava acima do bem e do mal; por exemplo, furar a fila no elevador, estacionar o carro na vaga de deficiente”, conta Eduardo de Souza. “Essa forma endeusada de se comportar, essas suspeitas de tomar ideias para si a gente pode questionar. Por outro lado, grandes administradores do passado, como Henry Ford, também cometeram falhas e erros, e mesmo assim deixaram um enorme legado”. Por trás de seu perfeccionismo e genialidade, Steve Jobs cometia erros, como qualquer outro ser humano.

 

Nos detalhes, a diferença

O perfeccionismo foi uma das grandes marcas de Jobs. Mesmo nos mínimos detalhes, a dedicação era a mesma. Segundo o jornalista e professor de design da Famecos Fábian Chelkanoff, esse trunfo foi fundamental na sua carreira: “O design hoje é determinante para que as coisas aconteçam. Como Jobs sempre foi um visionário, decidiu apostar, diferentemente de outros que são conservadores. Deu no que deu. Hoje se espera que a Apple faça produtos cada vez melhores”. O Doutor em Informática da PUCRS Fabiano Hessel chama a atenção para outro detalhe: “Qual foi a grande sacada dele? Colorir os computadores, coisa que ninguém tinha pensado”. A forma sempre foi um ponto a favor da Apple. “Basta ver os tablets das outras empresas. São mais pesados, mais difíceis, a impressão que dá é que todo o restante fica mais complexo”, completa Chelkanoff.

 

Software livre

Muitas pessoas entendem que Steve Jobs é contra a democratização da informação. Desde o princípio a Apple adotou a política de utilizar um software próprio e fechado em seus produtos. “Do ponto de vista da computação, o software fechado é uma limitação. Não se pode ter acesso de baixo nível às configurações do computador. Isso é um pouco frustrante”, argumenta Fabiano Hessel. Defensores do sistema aberto de computação, o grupo Linux Brasil questiona a postura de Jobs: “Apesar de facilitar a forma de interação do usuário, a Apple roda código fechado, sendo, portanto uma espécie de caixa preta”, afirma Ednilson Ferreira, criador do grupo. Por outro lado, Hessel vê pontos positivos na conduta da Apple. “O computador da Apple exige um conhecimento específico menor. Não tem muito espaço para fazer bobagens. Além do mais, é muito difícil entrar algum vírus no sistema.”

 

Toy Story 3: um dos grandes sucessos da Pixar feito em 3D
Toy Story 3: um dos grandes sucessos da Pixar feito em 3D

O gênio da computação

    “Foi um visionário. Alguém que imaginava e que criava coisas à frente de seu tempo.” Assim Fabiano Hessel define Steven Paul Jobs. Dono de uma intocável capacidade de inovação, Jobs foi responsável pela criação de grandes empresas, como a Apple, que projeta e comercializa produtos eletrônicos de consumo e computadores, a NeXT, que desenvolve sistemas operacionais, e a Pixar, famosa empresa de animação gráfica. A partir desse arsenal tecnológico produzido pelo empresário, sucessos mundiais foram criados. Dentre eles, destacam-se as animações Procurando Nemo e Toy Story, feitas em 3D. “Se tu pensas em um adjetivo para a Apple, é inovação. Steve conseguiu associar a imagem da empresa à inovação”, conta Hessel. Jobs mostrou ao longo de sua carreira que apostar no próprio talento é receita para o sucesso. Fabian Chelkanoff valoriza isso: “Copiar é muito mais fácil do que criar e Jobs foi na contramão disso.”

 

Texto: André Pasquali e Eduardo Caspary. Foto: Divulgação

1 comentário

  • Pessoal, só questo fazer uma correção. A Apple tem diversos software abertos. O próprio OS do iPhone e do Mac são originário do Unix, pai do Linux. Outro exemplo é o navegador Safari, cuja base esta no Android, Nokia e Blackberry.
    Mas foi só um detalhe, parabéns pela matéria!

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