Patologias criam falsa vida saudável

Exageros no consumo de produtos ou na proibição destes e distorção de imagem provocam sofrimentos e isolamento social de pessoas.

  • Por: Manuela Neves | Foto: Nícolas Chidem | 21/03/2019 | 0

O excesso de cuidados para ter alimentação saudável e a imagem distorcida de si próprio que provoca o consumo exagerado de anabolizantes associado aos exercícios físicos em demasia são sinais de duas doenças que passam a frequentar o vocabulário dos consultórios médicos. São elas respectivamente a ortorexia e a vigorexia.

O termo Ortorexia é uma junção das palavras gregas “orexis” (apetite) e “orthos” (correto), tendo seu uso começado em 1997 pelo médico americano Steven Bratman. Assim, ortorexia nervosa é o nome dado ao transtorno alimentar no qual os indivíduos têm fixação em comer somente alimentos saudáveis e livre de contaminantes. No entanto, mesmo sendo de conhecimento dos profissionais da saúde, o distúrbio ainda não é reconhecido como uma doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Na mente dos ortoréxicos, monta-se uma lista de alimentos separados em permitidos e proibidos. Nesse último grupo, estão incluídas as comidas com ingredientes químicos, agrotóxicos e também aquelas industrializadas ou ultra-industrializadas. Embora se aconselhe a priorização de outros alimentos, é preciso evitar exageros – como proibições, que configuram o pensamento transtornado. No Brasil, há o Guia Alimentar para a População Brasileira, no qual se reforça a ideia de equilíbrio na alimentação, sabendo dosar os diversos alimentos. Dessa forma, recomenda-se o maior consumo de produtos naturais, ingerir minimamente os poucos processados e evitar os processados e os ultraprocessados – mas nunca impondo proibições.

Ir a locais que não tenha o tipo de comida ao qual está acostumado leva a pessoa ao sofrimento. Dessa forma, uma das consequências da ortorexia é o isolamento social de quem a tem. “Por conta da doença, ela vai parar de frequentar lugares que não tenham as opções que ela considera saudável. Então vai acabar se isolando muito da sua vida social”, explica a nutricionista Letícia Almeida.  

Além da ortorexia, há outro transtorno pouco falado, a vigorexia. Conhecido também como Síndrome de Adônis ou Transtorno Dismórfico, trata-se de uma doença já reconhecida pela Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10) dentro dos Transtornos Hipocondríacos. Ela predomina em homens e faz que o indivíduo tenha uma imagem distorcida de si. Rafael Aldabe, personal trainer, fala que “o cara tinha 60kg, ele tá com 100kg  e ainda se acha magro”. Desse modo, o transtorno é marcado pela busca incessante por músculos e pelo corpo ideal, como também por treinos e uso de anabolizantes excessivos e dieta restrita.

Da mesma forma que a ortorexia, a vigorexia produz afastamento da vida social. Isso ocorre especialmente quando envolve atividades físicas, como caminhadas, que criam medo de perder peso e massa muscular; ir em festas, por falta de alimentos adequados a dieta; ou até mesmo viagens e situações em que não seja possível carregar todos os suplementos e anabolizantes.

Outro ponto convergente entre as duas patologias é a influência das rede sociais, nas quais a imagem de vida fitness é facilmente difundida. De acordo com a nutricionista Luciane Guaragna,“as redes sociais têm um papel de “peso” na propagação da ortorexia, seja no Instagram, Facebook e blogs escritos por “blogueiras fitness” se intitulando experts no assunto. O meio digital influencia muitas vezes negativamente, divulgando informações não científicas e não comprovadas através de estudos clínicos”.

No entanto, o meio digital também pode ter efeito positivo. Enquanto existem perfis desmotivadores, há contas que promovem a autoaceitação e contribuem para a onda do Body Positive. Essa filosofia pode ser traduzida como uma mentalidade de se ter uma visão positiva sobre o próprio corpo.

Anna Clara Carvalho, diagnosticada com ortorexia em junho de 2018, fala que costumava seguir musas fitness. Seus transtornos alimentares tiveram origem na adolescência, pois desde muito jovem sentia-se desconfortável com o próprio corpo. Por todos na sua família serem magros, Anna começou a sentir necessidade de exercitar-se para emagrecer. Isso foi seguido de bulimia e depois ortorexia.  “Qualquer carboidrato a mais no prato eu pirava. Não comia fritura, não comia muitas coisas que gostosas porque achava que seriam muito ruins pro meu corpo”, conta a estudante de Ciências Sociais de Mato Grosso do Sul. Um dos meios encontrados para se recuperar foi o Youtube. “Como são influencers (as youtubers), aparecem no seu perfil e você começa a ver mulheres gordas de biquíni”, auxiliando na autoaceitação.

Tanto ortorexia quanto vigorexia tem suas dificuldades para serem identificadas pela própria pessoa que as tem. A estudante de psicologia Juliani Damasceno, de São Paulo, só entendeu que havia passado por uma fase ortoréxica após seu término. No seu caso, a doença veio em decorrência da bulimia e da anorexia, impondo restrições alimentares a si. No entanto, a ortorexia nervosa aparenta uma maior aceitação do quadro em relação à síndrome dos vigoréxicos.

Há uma linha tênue que divide quem é vigoréxico ou somente alguém buscando se aperfeiçoar corporalmente. Ainda, raramente o público da academia fica satisfeito com o resultado, buscando atingir sempre um corpo ideal. O que aponta, portanto, quem possui vigorexia é uma série de certos comportamentos que configuram o treinamento excessivo. Em vez do exercício ser apenas uma parte da rotina semanal, acaba por atrapalhar a vida social. Além do receio de perda muscular e uso excessivo de anabolizantes, o vigoréxico ainda pode apresentar fadiga, depressão, irritabilidade e extrapolar seu limite físico – em especial quem não tem conhecimento de treino.

Mesmo com esses sinais, a distorção de imagem dificulta o reconhecimento daqueles que possuem o transtorno. Entretanto, Aldabe reforça que “ele (o vigoréxico) pode não querer fazer o tratamento, mas no fundo ele sabe. Ele tem a noção de que todas as pessoas na volta não estão mentindo pra ele, nem o uso exacerbado de anabolizante e a balança”. E dentre aqueles que aceitam intervenção profissional, não necessariamente se enxergam como são. Isso traz luz a um ponto importante – nenhum de tais transtornos tem cura definitiva.

“A ortorexia não tem cura, mas tem controle. O tratamento é feito com profissionais de diversas áreas: nutricionista, endócrino, psiquiatra e psicólogo. Se o paciente conseguir entender que se a dieta gera limitações e estresse, ela poderá ser tudo, menos saudável”, esclarece a  Luciane. O mesmo acontece com a vigorexia, que também possui tratamento multidisciplinar, no entanto há sempre a possibilidade de recaídas. “Não vejo tanto a questão da superação, toda época é difícil, sempre tem recaídas por que é um pensamento que continua”, diz Juliani, que apesar de vivenciar recaídas, hoje tem maior controle sobre si.

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